quarta-feira, fevereiro 13, 2008
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Marjane Satrapi - Sobre o humanismo de "Persépolis"
É um dos grandes filmes do ano. Foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação, o que é redutor. Não porque a animação seja um género menor mas porque este filme, que é por acaso um filme de animação, transcende a categoria do tipo de produção subjacente à sua criação. Trata-se da história da própria realizadora, Marjane Satrapi, que nos faz emocionar com ela e também se sabe rir de si própria e dos seus enganos. "Persépolis" transcende no entanto também a sua condição de obra autobiográfica para ousar aproximar-nos da realidade dos iranianos. Aumenta a realidade, aproxima-nos da cultura de um país, antigo, e revela como as vítimas são iguais em todo o mundo.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Quatro meses, três semanas e dois dias
Estreou esta semana em Portugal um dos filmes mais interessantes dos últimos anos sobre a mulher e a sua circunstância. Trata-se de um filme sobre uma jovem que quer abortar na Roménia dos últimos anos do comunismo. Trata-se sobretudo de um filme sobre a comunhão de uma amiga, que partilha com aquela que quer abortar uma circunstãncia - um destino - comum. É a circunstância de muitas mulheres em todos os sítios do mundo.
Mas este não é um filme sobre o aborto. É antes uma obra sobre a fragilidade - uma fragilidade que perdura - da situação das mulheres no mundo. Uma fragilidade que é tanto maior quanto menor é a liberdade possível na sua circunstância. Nos países em guerra, nos países em que politicamente as mulheres não existem ou continuam a ser cidadãs de segunda, os problemas inerentes à sua condição de ser mulher agravam-se.
Belíssimo filme este de Christian Mungiu. Belíssimas interpretações - a de Anamaria Marinca sobretudo. E que extraordinária história de cumplicidade...
Porque o mais perturbador e interessante neste filme é fixar o drama acompanhando sobretudo os movimentos da amiga, Otilia. Dá outra dimensão à consciência sobre a situação da mulher. Não é uma visão de dentro embora seja implicada. É a visão e a sensibilidade de quem não se exime à situação porque poderia ser ela, poderia ser consigo. Esta compaixão - cada vez mais ausente das relações entre os homens e as mulheres - dá maior intensidade, universaliza de outro modo o drama. Não é aquela mulher mas todas as mulheres do mundo, diz-nos.
terça-feira, janeiro 08, 2008
A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O suicídio e o canto
uma noite de amor que não se repetirá
Como um guizo, com todas as minhas jóias,
tini em seus braços até ao fundo da noite"

"Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
Para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados."
Até agora desconhecidos do mundo, os “landays” das mulheres afegãs (aparentemente gritos sem sentido), escondem afinal uma linguagem secreta feminina que serve para expressar discursos de ódio, amor, erotismo ou escárnio.
São vozes secretas proferidas à revelia e dirigidas aos homens e à cultura masculina dominante.
O landay é um pequeníssimo poema, normalmente de dois versos livres de nove e treze sílabas, sem rimas obrigatórias.
Gift
I speak out of the deep of night
out of the deep of darkness
and out of the deep of night I speak.
if you come to my house, friend
bring me a lamp and a window I can look through
at the crowd in the happy alley.
Forugh Farrokhzad
Translated by Ahmad Karimi Hakkkak
The Persian Book Review VOLUME III, NO 12 Page 1337
The Sin by Forugh Farrokhzad
Na poesia desta poeta iraniana encontro sempre a vida a pulsar. Encontro sempre a tradução para estados de alma e para esta condição, de ser mulher.
domingo, novembro 11, 2007
O Porto da Minha Infância

Evocar a cidade em que cresceu foi para Manoel de Oliveira o pretexto para encher o grande ecrã das sombras e fantasmas do mundo desaparecido em que se fez homem e cineasta.
«O Porto da Minha Infância» é provavelmente a resposta à produtividade do realizador. Caso singular no cinema português, quando após o 25 de Abril lhe viabilizaram as obras, pensou-se que era o final de uma carreira brilhante mas sufocada pelo Estado Novo o que estava em questão. Engano. O seu era um percurso cinematográfico a começar. Nas últimas décadas tem feito desfilar no ecrã as personagens que lhe agitam a imaginação - fantasmas de um mundo (em que o real e o literário se contaminam) em que cresceu - na proporção do seu desaparecimento. Daí que a sua criação tenha acelerado. Porque o que Oliveira faz é um cinema de resistência. De resistência ao fim de um mundo com tempo e com espaço para a sedução e o prazer, os sentidos e o olhar.
Este documentário é poético e sinfónico - como o primeiro, «Douro, a Faina Fluvial - o que acentua o movimento de regresso ao princípio de si. Abre com duas sequências espantosas. A primeira é a de um maestro dirigindo um vazio negro, que lhe devolve a sinfonia de uma cidade. A segunda é assombrada pela fotografia – desfocada e ora diurna ora nocturna - das ruínas da casa em que o cineasta nasceu, em 1908. É sob este fundo que Oliveira começa a narrar a história de amor com a cidade que Maria Isabel, a mulher do cineasta, embala numa canção evocadora da infância.
O paralelismo, estruturante do filme, entre a(s) vida(s) da cidade e a(s) de Oliveira – é, também, emprestado da sua primeira obra (o paralelismo era então entre os fenómenos naturais e os elementos da vida social), a que rouba imagens. A «Aniki Bobó» - que fez 60 anos em 2001 – vai buscar a evocação, inevitável, do amor inocente e o exorcismo da culpa pelo roubo que visa a sedução. Oliveira é o ladrão que seduz Miss Diabo como foi Carlitos que rouba a boneca para agradar a Teresinha. Oliveira fez-se actor e cineasta para roubar o prazer da contaminação da realidade pelo faz-de-conta e no-lo dar de presente em imagens. Para trás ficou a angústia da culpa, agora que nos devolve memórias do prazer que tem roubado à vida ao longo de quase cem anos. Mas Oliveira é também um ladrão do tempo e por isso um Desterrado, condição do sobrevivente a um tempo que passou. Inscrita no filme com sensualidade, a nostalgia do Desterrado não se confundirá nunca, porém, com a resistência à mudança do Velho do Restelo.
Manoel de Oliveira: 99 anos

Manoel de Oliveira fará 99 anos brevemente. É o cineasta há mais tempo activo em todo o mundo. E mantém uma lucidez e um sentido de humor prodigiosos. Recentemente foi distinguido com mais um prémio, europeu, pelo seu último filme, "Cristovão Colombo-O Enigma". O texto que publico é relativo, porém, ao seu filme de memórias: "O Porto da Minha Infância".
Dance Me to The End of Love
Uma noite em Toledo perdemo-nos pelas ruas e entrámos num velho edifício com ar de sociedade recreativa. O rés-do-chão, mal alumiado, evocava outro tempo. Descemos as escadas e na cave, em redor do "tablado" alinhavam-se as cadeiras onde os dançarinos descansavam. Arrastáste-me para a pista onde, trôpega, rodopiei nos teus braços e ao ritmo dos teus pés ligeiros. Soavam tangos e valsas e eu entreguei-me ao movimento do teu corpo, a cabeça a rodopiar... Desde então fui aprendendo a dançar a dois. Dando os passos para adiar o fim do amor.
Avec le temps
Com o tempo tudo muda. A nossa perspectiva vai mudando relativamente a tantas coisas... Mas também com o tempo tem aumentando o meu amor à liberdade, pela minha família, pelos amigos e também pelo homem que me adivinha nos meus movimentos, nas inquietudes e nas explosões de paixão...
sábado, novembro 03, 2007
Pather Panchali (1955)
A trilogia "O Mundo de Apu", de Satyajit Ray, é injustamente pouco conhecida no Ocidente. Foi um amigo, em tempos meu professor, o Zé Manuel Costa, quem me revelou o cinema indiano e o Ray em particular. A sequência do comboio de "Pather Panchali" é suficiente para nos revelar a poesia do cinema de Ray que ajudou a vencer o estereótipo do filme indiano, impossível de conceber antes sem dança e sem música mas que podia muito bem escamotear a realidade do país e dos seus homens e mulheres.
Junto ao mar, em Novembro.
Com o calor que teima em ficar, apetece... "La mer". O vídeo é terrível mas a interpretação do Charles Trénet é maravilhosa.
Billie Holiday, My Man
É uma canção de amor sofrido. Desde a adolescência é uma das minhas favoritas por causa da entrega da Billie... Com a idade entendi melhor.
terça-feira, outubro 30, 2007
Improvisos
"Bebeu o chá de cidreira lentamente, a contrariar a agitação que sentia. Não sabia bem onde estava. Acordara sem consciência de si. O gosto do chá era-lhe familiar. Por sua vez o quarto de paredes altas, quase despido de móveis, dominado pela beleza de um ícone em que figurava a Virgem com o menino, devolvia-lhe a reminiscência de uma tarde quente, de Verão, e de um diálogo íntimo, olhos nos olhos, com a imagem.
Nenhum som no interior da casa. Era sólida, rasgada a branco na paisagem, e tinha dois pisos. Alongava-se através de um casario, baixo.
O piso inferior era quase integralmente ocupado pela cozinha onde o ocre amarelo das paredes só era quebrado pelo branco, sujo pela fuligem, no interior da enorme chaminé e pelo arco desenhado a tijolo burro que dividia o espaço. Era aí que estava rebuscando lembranças.
Na mala encontrou uma carteira. Nela, o bilhete de identidade dizia-lhe que se chamava Raquel Amendoeira. Tinha 27 anos, era natural da Cruz Quebrada, solteira. A estranheza aprofundou-se. As memórias desconexas que tinha eram curtas para o que precisava de saber sobre si mas sobravam elementos que não eram explicados pela definição, tão objectiva de si, que lhe dava aquele cartão onde uma fotografia de mulher – a sua – sorria, pouco à vontade. Olhos e cabelos negros definiam a cara, dominada por um olhar firme, incisivo. A pele era morena e os lábios bem desenhados.
No hall de entrada da casa o bengaleiro tinha vários casacos de mulher e de homem, dependurados. Chapéus de palha, um boné de burel, alguns gorros de lã coroavam o topo do bengaleiro. Eram roupas e acessórios práticos, rurais, para abrigar do sol e da chuva. Revelavam uma existência pouco mundana.
Saiu para a pequena alameda, dominada pelos aloendreiros e pelo cheiro a figos, já em decomposição, das figueiras defronte do monte, que o Outono despia então de folhas. Na extremo do casario, estava um carro velho estacionado. Não fixava nunca marcas de carros mas soube que este era o seu. Conheceu-o instintivamente tal como à gata preta que veio imediatamente a correr para si e se roçou pelas suas pernas.
Pela primeira vez nesse dia a felicidade sobrepôs-se à estranheza que sentia. Aceitou a relação, íntima, que lhe foi revelada. A frescura da noite perdurava ainda mas os pássaros trinavam enquanto o calor do sol se ia intensificando nesse dia de um Outubro a terminar."
terça-feira, outubro 16, 2007
"A Guerra" de Joaquim Furtado
A RTP exibiu hoje o primeiro episódio da série "A Guerra", da autoria de Joaquim Furtado. Imagens documentais alternando com testemunhos contemporâneos dos protagonistas que viveram uma guerra onde participaram um milhão e quatrocentos mil homens só do lado português compõem um autêntico exemplo de jornalismo de investigação quando o género está praticamente extinto no nosso país. Para uma jornalista descrente no actual "estado da arte" e como estudiosa do colonialismo e sua representação nas images documentais é um privilégio assistir. Obrigada, Joaquim Furtado.
segunda-feira, outubro 15, 2007
Andrey Rublev
É uma das sequências da obra de Tarkovski sobre o extraordinário pintor de ícones. Ao seu modo, através de cinema, Tarkovski conseguiu a mesma delicadeza e profundidade na representação do homem.
